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sábado, 3 de janeiro de 2015


Dentro de mim mora um grito.
De noite, ele sai com suas garras, à caça
De algo pra amar.

Sylvia Plath
Quando acordei esta manhã no quarto úmido e escuro, ouvindo o tamborilar da chuva por todos os lados, tive a impressão de que havia sarado. Estava curada das palpitações no coração que me atormentaram nos últimos dois dias, praticamente impedindo que eu lesse, pensasse ou mesmo levasse a mão ao peito. Um pássaro alucinado se debatia lá dentro, preso na gaiola de osso, disposto a rompê-lo e sair, sacudindo meu corpo inteiro a cada tentativa. Senti vontade de golpear meu coração, arrancá-lo para deter aquela pulsação ridícula que parecia querer saltar do meu coração e sair pelo mundo, seguindo seu próprio rumo. Deitada, com a mão entre os seios, alegrei-me por acordar e sentir a batida tranquila, ritmada e quase imperceptível de meu coração em repouso. Levantei-me, esperando a cada momento ser novamente atormentada, mas isso não ocorreu. Desde que acordei estou em paz.
Sylvia Plath

sábado, 27 de julho de 2013






Neste mundo não há saída:
 há os que assistem, entediados, 
ao tempo passar da janela,
e há os afoitos,
 que agarram a vida pelos colarinhos.
Carimbada de hematomas,
 reconheço, sou do segundo time.


[Trecho do livro "Uma Vida Inventada", de Maitê Proença]




Deus é leve e ri. 


(R. Niebuhr - Frase citada por Rubem Alves no livro Espiritualidade , pág 91)





“…e o que foi a vida? Uma aventura obscena, de tão lúcida”

(Hilda Hilst,  em "A Obscena senhora D" )



"Eu amo Aquele que caminha
Antes do meu passo.
É Deus e resiste" [...]

Hilda Hilst, 'Cantares de Perda e Predileção' [1983]


"Te amei sonâmbula, 

esdrúxula,

mas te amei inteira.”


[Hilda Hilst, in Poemas Malditos, Gozosos e Devotos]



“Como eu gostaria de arrancar a minha pele sem medo 

e mostrar

o meu todo para o outro.”


[ Hilda Hilst, Fluxo Poema]




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013


— Mag, quero transar.
— Ah, sério Slutt? Agora me diz quando você não quer transar.
— Não, agora eu quero. Transa comigo? — sorri pra ela e o queixo dela caiu.
— Não. — foi uma resposta pergunta.
— Mag, sério, bora fazer amor?
— Slutt! — deu um soco no meu peito e eu abracei ela.
— Deixa eu te comer, Maggiezinha.
— Sexo tem que ter amor.
— Ah não, você não cola com esse papo.
Ela riu. — Foda-se o amor Slutt. Sua proposta é tentadora, mas não. — balançou o indicador pra lá e pra cá e mordeu a boca.
— Não morde a boca, sua filha da puta.
— Tá ficando excitadinho, tá Slutt? — ela virou e rebolou. E saiu rindo.
Puxei o braço dela. —Vou te estuprar, Maggie.
— Uh, que medo de você babacão.
Coloquei os dedos nas têmporas. — Respira Slutt.
— Respira Slutt, respira pra você não comer a Maggiezinha. Respira Slutt. — ela me imitou levantando às mãos e falando com voz de puta, depois mordeu a boca mais uma vez.
— Maggie! — a repreendi. Ela ficou me olhando como quem não tivesse nem ai. — Quero apostar uma coisa com você.
— O quê?
— Que em três meses você vai se apaixonar por mim se eu for o príncipe e não o sapo. 
— Slutt, querido. Não me apaixono por príncipes nem por sapos. Você é sapo pra porra, feio e retardado e não conseguiu nada comigo, não vai ser você tentando ser fofo que vai conseguir. 
— Apostado então?
— Claro! — ela gargalhou.
— Se eu ganhar tu trepa comigo, firmeza?
— Firmeza, e se eu ganhar tu vai ter que sair correndo pelado na escola.
— Agora o trabalho vai ser mais intenso, Maggie. — ri.
— Vou preparar a câmera pra filmar.
— Vou pegar as camisinhas.

Slutt e Mag 

domingo, 10 de fevereiro de 2013






“Holocaustos não me assombram. Estupros e trabalho escravo infantil não me assombram. Franklin, sei que você pensa o contrário, mas Kevin também não me assombra. Fico assombrada quando deixo cair uma luva na rua e um adolescente corre dois quarteirões para devolvê-la. Fico assombrada quando a moça do caixa me lança um amplo sorriso, junto com o troco, quando a minha fisionomia era apenas uma máscara apressada. Carteiras perdidas enviadas aos respectivos donos pelo correio, estranhos que fornecem indicações precisas de uma rua, vizinhos que regam as plantas uns dos outros — essas coisas me assombram.”

— Precisamos falar sobre o Kevin 






quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013






“Ele pede aos amigos que digam a ela que até está bem, levando, obrigado. Ela não oculta uma certa tristeza no olhar na frente deles. Ele espera que ela esteja feliz e bem acompanhada, com alguém decente, que tenha ao menos o carinho que ela merece. Ela torce secretamente para que tão cedo ele não encontre uma garota “melhor”.

— Gabito Nunes. 


domingo, 1 de julho de 2012







Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:

quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar de flores.

(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.

(Eu sou beato em violetas.)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.)

Manoel de Barros 

quinta-feira, 28 de junho de 2012





“Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata. Quem tenta ajudar um broto a sair da semente o destrói. Há certas coisas que não podem ser ajudada. Tem que acontecer de dentro para fora.”

Rubens Alves 

segunda-feira, 25 de junho de 2012


“Um som quase inaudível, como só pode ser o de umas lágrimas que vão deslizando lentamente até às comissuras da boca e aí se somem para recomeçarem o ciclo eterno das inexplicáveis dores e alegrias humanas.”

Saramago



quinta-feira, 15 de março de 2012


 

Hoje é um daqueles dias que sinto em meu coração uma liberdade aprisionada. Sinto um ímpeto de pássaro na gaiola, cuja porta sempre esteve aberta. Pés na porta e olhos para dentro. Olho e fico com uma vaga vontade de girar, girar e girar, até ficar tonto e cair no chão extasiado, como eu fazia quando menino. Em cada giro um sonho perdido. 

Dal Hofmann

quinta-feira, 8 de março de 2012



Não me sonhe, por favor. Pessoas que acham que podem me amar me ofendem. É sempre muito pouco o que elas podem e é sempre muito diferente do que deveria ser amor o que elas oferecem.

Eu custo a suportar a banalidade do meu ser. Eu custo a aceitar uma relação como a que qualquer um poderia ter. Eu seria mais feliz se eu não me achasse melhor do que a minha vizinha. Mas eu sou infinitamente melhor que ela. (...)

Sou imatura, egocêntrica e debilmente iludida por uma auto-estima analgésica de efeito rebote. E dane-se. Um dia o meu amor verdadeiro chegará e será diferente de tudo isso e nós vamos chorar de emoção por ter valido a pena não sangrar até a morte nos insistentes e rotineiros momentos de angústia e nada e vazio e solidão e inconformismo.

Tati Bernardi



Não deu tempo de virar mulher. A hora que ele aparecer no desembarque do aeroporto, com sua cara de homem, com sua voz de homem, eu vou ter vontade de pedir que ele volte de onde veio e espere mais cem anos. Porque não deu tempo de eu virar mulher. Eu vou ter vontade de pedir que ele me carregue no colo até a casa da minha mãe e me entregue pra ela. Eu queria tomar sopa na casa da minha mãe. Eu lembrei agora que minha mãe me dava Sustagem quando eu ficava assim, tão assustadoramente encantada pelo mistério das coisas. E ela temia que eu desintegrasse. E agora? Como faz quando se é adulta? Qual é a sustagem de agora para que eu não desintegre? Como é que se ama com um corpo de trinta e três anos se por dentro eu tenho cinco anos e estou tremendo, apavorada, pressentindo o estrago que as coisas de verdade podem causar. Por que eu chamo de estrago quando sei que, na verdade, estrago é o que as coisas que não são de verdade causam. Eu tenho tamanho pra suportar o tamanho das coisas de verdade?

Escrevo isso e choro. Porque quero tanto e não quero tanto. Porque se acabar morro. Porque se não acabar morro.

(...)

Tati Bernardi

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012


“E eu só tenho a agradecer aos que não desistem de mim, quando até mesmo eu já desisti.”

(Noemyr Gonçalves)


Ainda vai continuar sendo amor, mesmo nas horas das brigas, mesmos nas horas dos choros, mesmo quando houver vírgulas, mesmo quando sentir raiva, mesmo quando falar que não é amor.



“Quero todo o teu espaço e todo o teu tempo. Quero todas as tuas horas e todos os teus beijos.”

(Mário Quintana)


"Aos caminhos, eu entrego o nosso encontro."

Caio Fernando Abreu


"Já sentiu o frio ar que é a saudade?"
(João Guimarães Rosa)


Mas era nos olhos, só nos olhos, que se fixava aquele mudo apelo...
Eu só tenho esperas!

Caio Fernando Abreu